EQUOTERAPIA

Cyberhorse

ADESTRAMENTO DO CAVALO PARA A EQUOTERAPIA

Cel. Cav. R1 Valmir Canabarro Amorim

Dr José Torquato Severo, médico neurologista.

 

 ASPECTOS ETOLÓGICOS BÁSICOS 

       Os aspectos etológicos das comunicações: bases das comunicações entre o homem e o cavalo, a aplicação em Equoterapia e a análise dos mecanismos utilizados.

Para que os mecanismos etológicos envolvidos fossem entendidos, os cavalos foram observados durante muitos anos, em seus comportamentos consigo mesmo, com outros cavalos e nas interações com o homem, em seus habitats, com e sem o trabalho com cavaleiro montado ou em outros tipos de trabalhos.

 Desse modo, se pode distinguir dois diferentes tipos de comunicação, de acordo com os trabalhos propostos, com e sem um cavaleiro montado.

 Sem cavaleiro, o cavalo mostra suas atividades inatas com estruturação espacial topológica e organização social. Com o cavaleiro montado, atuando juntos, a comunicação é realizada por estímulos somestésicos, usando mecanismos isoestésicos e isopráxicos.

 Essa comunicação sensório-motora é muito rica e pode ser adaptada às necessidades do tipo de trabalho, no adestramento do cavalo para os esportes ou para outras atividades com funções bem definidas.

 Na Equoterapia, a comunicação sensório-motora é muito maior e  uma transferência emocional interativa entre a pessoa e o cavalo se estabelece em níveis semelhantes, no sistema límbico, sistema nervoso (mecanismo isoestésico).

 A COMUNICAÇÃO

A comunicação existe entre os animais, mas sem a capacidade de usá-la em seu próprio corpo (egocentrismo). A comunicação no homem serve para estabelecer diversos tipos  de relacionamentos. As atividades humanas, como as dos animais, são controladas por redes neuronais que trabalham como osciladores auto-excitantes e auto-atenuantes. O cavalo não gosta de galopar só, mas galopa quando os outros da manada o fazem.

 A transmissão gestual de um para outro animal é chamada isopraxia ( ação igual ). Ela pode ocorrer entre o homem e o cavalo se o contato entre eles for adequado e agradável e sem interferências estranhas ou inadequadas. Por isso, os movimentos do cavaleiro podem promover movimentos homólogos no cavalo e por isopraxia reciproca, também o cavalo pode transmitir movimentos semelhantes para o cavaleiro.

 Entretanto, atividades sincrônicas nas redes neuronais oscilantes não ocorrem somente no sistema sensório-gestual, mas também no sistema afetivo.  Semelhantes comportamentos emocionais com transmissões bilaterais podem ocorrer entre humanos ou entre humanos e cavalos. Este fenômeno é chamado: isoestesia (iso, igual e estesia, sensibilidade). Isto é melhor explicado e entendido quando se observam comportamentos entre crianças e animais ou entre pessoas doentes e que são controlados por sistemas afetivos e  por um sistema intelectual imaturo ou pouco desenvolvido.

Entre os humanos apenas, o neo-córtex tem essa função e esse fenômeno é chamado de isognosia ( isso, igual e gnosia, conhecimento). Essas conecções biológicas são utilizadas para comunicações num espaço social entre cavalos ou entre eles e seres humanos. Estes conhecimentos são a base para o entendimento do trabalho terapêutico usando cavalos como mediadores.

Para os animais, ou também para crianças e para pessoas doentes, as experiências espaciais primitivas são “topológicas” , isto é, são relacionadas com a proximidade, a separação, a continuidade, a clausura ou a uma sucessão de possibilidades de movimentos.

 ESPAÇOS PESSOAIS (virtual dynamic space - vds)

 A característica deste conceito é a de zona próxima, onde é organizada uma zona de proteção, que vem a ser considerada uma parte integral do organismo do animal. É representado por um espaço virtual constituído por toda a pele e que é limitado pelas possibilidades de estender ou recolher os membros e a cabeça. Objetos ou animais que se movam dentro dos limites de 6 metros aproximadamente, se tornam não familiares e provocam estímulos sensoriais diversos e com inúmeras reações.

ESPAÇO SOCIAL INTRA-ESPECÍFICO

1 - O espaço virtual projetado (vps): nenhum animal, inclusive o homem, vive sozinho e todos têm um espaço vital muito dinâmico. Cada um imagina uma zona de proteção, maior ou menor) ao seu redor.

2 - O espaço social inter-pessoal:  é como se fosse um pequeno território, o qual o animal usa para se deslocar,  que pode ser imaginado e se tornar impenetrável. É um espaço projetado de acordo com cada gênero de animal e é constituído de: distância de ataque, espaço para a fuga, espaço de vôo, espaço de nadar. São espaço, onde possam ser praticadas reações em situações críticas. Um comportamento inato e esteriotipado de um cavalo é o de abrir barreiras, derrubar obstáculos, ritual de colocar o focinho contra focinho. É uma maneira própria de estabelecer espaços personalizados entre 2 animais. Também é a chamada ponte olfativa. Se o ritual tiver um resultado negativo, eles se tornam agressivos, mas se for positivo, as barreiras desaparecem e os dois animais se tornam habilitados a um contato social em harmonia ( como companheiros, para atividades sexuais, ou para viver em manadas).

3 - O espaço social interpessoal abrangente: onde o homem e o cavalo se estabelecem num espaço comum e por causa das características do cavalo ser um animal domesticável, o ritual de contato pode ser criado entre o homem e o cavalo e capaz de ser incrementado por atitudes de 2ª  intenções do homem: oferecer alimento, falar, fazer carinhos, adestrar. Graças a esses mecanismos, o homem pode penetrar no espaço do cavalo e aplicando efeitos físicos; escovar, lavar, encilhar, executar trabalhos de rotina e trabalhar o cavalo em adestramentos diversos. O homem passa a ser tratado pelo cavalo como se fosse outro cavalo. Se outras atitudes forem necessárias, sensações táteis e olfatórias poderão ser estabelecidas entre esses dois seres, para que sejam provocadas atrações mútuas e para que seja criado um espaço interpessoal comum entre eles. Assim, o cavalo poderá ser trabalhado de diversas maneiras e com diferentes objetivos: a pé, na guia, com rédeas longas, com o cavaleiro montado, em veículos de tração ou em liberdade restrita.

APLICANDO AS ESTRUTURAS PARA O TRABALHO NESSE ESPAÇO:

O TRABALHO A PÉ - Nesta situação, o cavalo aceita o homem no seu espaço social. O homem deve comportar-se respeitando esta situação: ele “aluga ou toma emprestado” o espaço do cavalo.

ATENÇÃO: Os espaços antes denominados VPS e VDS se modificam e se sobrepõem freqüentemente. Os movimentos do homem e do cavalo devem ser realizados a uma certa distância, do contrário, os espaços se tornam insuficientes, com zonas alteradas  e conseqüentemente, desorganizados e agressivos.

Não se pode esquecer que o cavalo atribui ao homem um espaço projetado, com uma especial formato, porque sua posição e suas necessidades exigem que ambos se movimentem ao redor. Quando o adestrador usa um longo chicote, por exemplo, o espaço projetado dele é aumentado drasticamente, em especial se ele está movendo-se rapidamente. Para o cavalo, o chicote não é um objeto independente e sim, uma extensão o corpo do homem e isto perde o significado, quando não é usado ou é entendido adequadamente.

Muitas maneiras podem ser criadas para  pressionar o cavalo, aproximando-se de seu flanco e colocando-se na sua retaguarda, ou  para mantê-lo parado, à frente.

Quando se trabalha um cavalo em liberdade, dois mecanismos podem ser empregados:

Em espaço restrito: os espaços SVP e o SVDP ficam em permanente cotato. A comunicação se torna do tipo tátil-olfatória. As principais dificuldades são os bloqueios e a perda de contato e comunicação. Nesta situação o cavalo, geralmente, se coloca numa posição defensiva: focinho contra o canto do picadeiro. Se o adestrador aliviar a pressão sobre o cavalo, ocorrerá o fenômeno inverso: o efeito repelente se torna uma aproximação afetiva (isto pode ser visto em demonstrações de números de cavalos em um circo).

Em espaço grande: trabalhar nesta situação, com rédeas longas ou no volteio, é uma maneira de conter o cavalo e os espaços pessoais podem ser delimitados à vontade. Esta situação permite uma comunicação tátil e pela voz do homem com o cavalo, desde que sejam ações coerentes.

TRABALHO COM O CAVALEIRO MONTADO :

 Este tipo de trabalho necessita da homologia gestual ou isopraxia entre cavaleiro e cavalo.

Uma análise gestual de ambos mostra, quando há movimentos harmônicos e eficientes, os gestos do cavaleiro devem ser sincrônicos com os do cavalo: assento, mãos e pernas em ação conjunta.

- as ações dos músculos abdominais e das pernas do cavaleiro são simultâneas e na mesma direção das estruturas anatômicas semelhantes do cavalo;

- as ações do tórax, dos ombros e dos membros superiores do cavaleiro são simultâneas e na mesma direção das ações das estruturas homólogas do cavalo;

- o peso do cavaleiro é deslocado ao mesmo tempo e na mesma direção da massa corporal do cavalo.

- da mesma maneira, essas estruturas do cavalo se movimentam de acordo com as do cavaleiro.

 A grande diferença, entre as ações do cavaleiro e as do cavalos, é que o cavaleiro não desenvolve os mesmos gestos espontaneamente,  como o cavalo o faz desde o nascimento, mas aquele se torna muito  contente em aprender esses movimentos.

A parceria entre o cavaleiro e o cavalo (se o cavaleiro for bastante experiente) se torna um sistema coerente e dinâmico para os dois seres firmemente interagindo um com o outro, com um resultado positivo, vindo da atividade perceptível do cavalo, e um negativo, continuado por acomodação do cavaleiro.

 Estas complexas interações entre esses dois seres podem também, ser fundamentadas nas “percepções das formas” (gestalt), as quais são realizadas por expressões táteis, de modo cinestésico  e com  diversas modificações posturais ou pelas dinâmicas acomodações de estímulos e reações, que um provoca sobre o outro. Isto provoca o restabelecimento da homologia gestual , onde se tem por objetivo uma coerente e confortável atividade com funções orgânicas relaxadas.

 Se o Praticante deliberar perturbar esta coerência, o cavalo demonstrará sua necessidade por um estado de equilíbrio ótimo, com a finalidade de eliminar espontaneamente, as distorções. Isto provoca a eliminação de estados agitados e sem provocar modificações nos movimentos propostos e desejados.

 Estas percepções táteis e cinestésicas da “forma” acabem sendo úteis à Equoterapia, por provocarem reações musculares do cavalo no Praticante e vice-versa.

A proposta prática permitirá ao Praticante ou ao terapeuta, o uso de “movimentos intencionais”, baseados nas impulsões dos passos do cavalo. E isso passa a ser útil e saudável ao Praticante. Entretanto, movimentos irregulares agitação e alteração do estado emocional do cavalo influirão nas respostas motoras do Praticante, podendo provocar neste, intolerância, tensão muscular aumentada, medo, desconforto e pode surgir daí, a idéia de abandonar a terapia.